quarta-feira, 11 de maio de 2011

SCI-FI Vault!

 
Para todos os amantes do cinema de ficção científica, aqui vai um link de ouro, que contém cerca de 70!! filmes:  
BOM PROVEITO!


Caros leitores,

é com prazer que inauguramos a nova secção musical Galáxia de sons. Aí poderão encontrar alguma variedade de blogs musicais de grande qualidade, que abrangem estilos musicais como o jazz, funk, rock, rock progressivo, soul, fusão entre jazz e rock, blues, etc, etc... É só pesquisar!

Orion´s belt

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Porque se deve fazer/ouvir boa música...

Uma amostra de como a matéria está estritamente ligada ao som (vibrações) e de que todas e quaisquer vibrações a que nos sujeitamos diariamente têm uma relação directa com as nossas próprias vibrações e, consequentemente, nossos estados de espírito. Por isso, oiçam boa música!


Um emissor de ondas está conectado a uma placa de metal. A frequência dessas emissões é progressivamente aumentada e a matéria (sal ou areia) desenvolve-se em padrões cada vez mais cpmplexos.

Montblanc House / Studio Velocity


Architects: Studio Velocity
Location: Okazaki, Japan

Project year: 2009

Photographs: Kentaro Kurihara




Musical Break

No seguimento de um post recente do Karkov, aqui ficam duas propostas de dois grandes músicos do nosso tempo!

John Fahey (February 28, 1939 – February 22, 2001)



Alice Coltrane (August 27, 1937 – January 12, 2007)

"Normal is getting dressed in clothes that you buy for work and driving through traffic in a car that you are still paying for - in order to get to the job you need to pay for the clothes and the car, and the house you leave vacant all day so you can afford to live in it."

Ellen Goodman

É proibido, mas pode-se fazer...


Deixo-vos uma dica para um blogue de música que se destina a divulgar edições maioritariamente dos 60's e 70's que não tiveram a sorte (ou o azar) de serem apadrinhadas pelas grandes editoras da altura. Uma selecção de grande qualidade, num espaço onde o autor faz uma crítica abrangente a cada álbum que apresenta, acompanhada da estrutura do álbum e respectivo link.
Para quem sempre gostou da sonoridade destas décadas, com certeza não sairá desapontado!

domingo, 8 de maio de 2011

BIC evolution


"Genesis" by krk
"Psicanálise" by krk

"untitled" by Rui.A

"Gotas de árvore" by krk

"The walking beauty" by Krk

"Between Heaven and Earth" by krk


"Quadrado em formação" by krk

No regresso...

Fluxo de Ser
pelos tubos dos meus limites,
de tal pureza,
não pergunta onde ir. 
[Nov 2010, Kathmandu]

Reality is a sophisticated mechanism of chain events...
When perceived, they are called coincidences.
[Dez 2010, Honk Kong]

A memória do que foi,
e o sonho do que será
estão cheios do vazio
do que nunca chegará.
[Dez 2010, Moscovo]


Tudo o que existe...
Nunca o foi, nunca o será.
[Dez 2010, Londres]

...
Dez 2010, Portugal

by Karkov    



Portugalnomics!!!



Um filme didáctico e bem humorado promovido pela Geração C, uma iniciativa da Câmara Municipal de Cascais na área da Juventude. É o primeiro vídeo de uma série com o título Portugalnomics, dando a conhecer ao povo Finlandês alguns dos factos mais notáveis da nossa História.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Conferências do Estoril - "Desafios Globais, Respostas Locais"

"Pela sua relevância e actualidade, a generalidade das apresentações e debates incidirá com maior ênfase nas transformações políticas e sociais que decorrem em vastas zonas do Magrebe e do Médio Oriente. A crise do Euro e os seus reflexos sobre a construção europeia serão igualmente objecto de particular destaque."

Programa aqui.

Informação/site: www.conferenciasdoestoril.com

As conferências serão transmitidas em directo através do Jornal Expresso.
Notícia e transmissão aqui.

quarta-feira, 4 de maio de 2011


"Família Loureiro". 2011
(col. particular)
Aguarela e tinta sobre papel
52 x 43,5 cm

Concurso Bohemian Hostel for Backpackers - Barcelona




A tripla de arquitectos Paulo, Rui e Roque orgulham-se de apresentar o Projecto do Concurso "Bohemian Hostel For Backpackers - Tower in Barcelona". Não tendo ganho nenhum posto de relevo no concurso, preteridos por alguns desenhadores espaciais ou mesmo por meros exercícios de masturbação visual, continuamos firmes nas nossas convicções de que a arquitectura não se faz através de uma excelente manipulação de um qualquer programa de renders, mas sim através da análise da situação específica de cada projecto e do programa e pressupostos enunciados!
Podem ver detalhes e propostas seleccionadas do concurso em: http://www.arquitectum.com.



terça-feira, 19 de abril de 2011

Visões arquitectónicas/urbanas

Apresento-vos o trabalho de dois fotógrafos que lidam muito com a questão urbana/fotografia de arquitectura.


Nuno Cera é português, comprei recentemente um livro dele, "Futureland" (edição associada à trienal de arquitectura de Lisboa, creio). FUTURELAND "é um projecto videográfico e fotográfico que pretende investigar e perceber o impacto do crescimento urbano nas pessoas e no ambiente, assim como a ligação entre arquitectura, espaço público e sociedade. Pretende examinar e formar um atlas visual e narrativo das condições espaciais, sociais e arquitectónicas de nove cidades espalhadas por diferentes continentes: Istambul, Turquia; Cairo, Egipto; Dubai, EAU; Los Angeles, EUA; Cidade do México, México; Xangai, China; Hong-Kong, China; Jacarta, Indonésia; Bombaim, Índia."
Muito interessante!




Cristobal Palma, fotógrafo que divide a sua vida entre Santiago e Londres, e cujo trabalho se estende pelos domínios do urbanismo, das viagens e, claro, da arquitectura.


Recomendados, os dois!

"(PA AUTOMÓVEIS) RUA DO MORENO, COIMBRA"

Terrorismo, Urbs e a resistência possível

Terrorismo, Urbs e a resistência possível
Rui Aristides
“If the U.S. is a leading terrorist state, if, as you say, Britain is another example of a terrorist state, how do you distinguish between that kind of what you describe as terrorism and what they are saying “Osama Bin Laden is a terrorist”? Make the distinction.
“That’s very simple. if they do it its terrorism, if we do it its counter-terrorism.”[1]
Será que podemos colocar a distinção entre cidade e cidade-informal ou não-cidade, favela, musseque, nos mesmos termos? Se sim, será que a única justificação dessa distinção assenta na condição política entre império e dissidentes ou haverá algo mais?
A diferença entre polis e urbs.
A polis grega pode ser compreendida a partir da distinção entre politikè e oikonomikè, respectivamente, entre politica e economia. A última, para a sociedade grega, refere-se à oikos ou a casa, a unidade celular privada, oikonomikè é pois a gerência do domínio privado, no seu conjunto de relações despóticas, o homem é o rei da casa.
Politikè, inversamente, é a gerência das relações da esfera pública para o interesse público, é a ferramenta básica de funcionamento da polis, tendo nascido da própria.
Consequentemente, e concordando com Pier Aureli, “The principle of economy can be distinguished from the principle of politics in the same way that the house is distinguished from the polis.”[2]
Por seu lado o termo latim urbs implica, ao contrário da polis, um fazer cidade sem bases politicas, ou seja, uma ideia de cidade que se justifica apenas na estrutura física, essencial à vida, que materializa no território. A ideia de urbs permite-se actuar na condição de tabula rasa, tenha-se em mente as cidades romanas formadas de acampamentos militares. Logo, concordemos que “(…)urbs describes a generic condition of protected cohabitation reducible to the principle of the house and its material necessities.”[3]
À polis e à urbs equivalem, por isso, dois conjuntos distintos de conceitos, respectivamente: cidade delimitada (muralhada), público, estado, politica; cidade expansiva, infra-estrutura, privado, império, simbolismo.
Será necessário explicar este conjunto de conceitos, no entanto, em vez de os explicar um a um, gostaria de os expor a mais uma leitura da diferença entre polis e urbs na tentativa de esclarecer a dialéctica entre polis e urbs.
A lei para os gregos era designada de nomos, não regulava a acção politica por si, mas criava-lhe um enquadramento baseado numa forma espacial concreta, a da polis, e sua divisão entre público e privado; daí a diferença entre Aghora e oikoi.
Para os romanos existia a lex, de onde deriva a palavra lei, e é um conjunto de políticas, de leis, baseadas num consenso político e funcionando como um tratado. Era parte integrante da lógica expansionista romana, pois era através do tratado (lex) que os vários povos derrotados viriam a integrar o império.
Enquanto a nomos era o que limitava e sustinha a polis na sua unidade social e formal, a ideia de lex era precisamente o seu oposto, um conceito genérico e inclusivo que terá sido o que transformou Roma de uma polis para uma civitas, e como tal, para um império[4].
Civitas originou a palavra cidade e urbs derivou para urbanização. Na sua concepção romana, as duas complementavam-se, a primeira definia a condição social e politica para o que designamos hoje de cidadania, a segunda a genérica infra-estrutura necessária para o habitar, que actualmente designamos de urbano.
O que actualmente toma corpo na nossa utilização do território é o exponenciar, por um lado, da contradição entre a ideia de polis (cidade finita e politica) e a ideia de urbs (objecto-infinito); e por outro, a exponencial valorização de uma forma de urbs que parte não de uma gerência da coabitação pela lei (civitas), mas sim, de uma gerência económica, e que propositivamente dá pleno significa à acção de urbanização ( China, Índia, Brasil, Angola, etc…).
A No-Stop City dos Archizoom, mais do que ser uma peça artística forjada em ambientes de extremos e ácidos, uma exuberante ironia da decadência modernista, é acima de tudo uma perfeita previsão do que se veio a suceder com o fazer cidade.
Concordando com Pier Aureli, “No-Stop City ultimately “succeeded” in prophesying a world in which human associations are ruled only by the logic of economy and rendered in terms of diagrams and growth statistics.”[5]
O que se tem vindo a tornar mais claro é que a gerência da cidade caiu definitivamente sobre o domínio da technè oikonomikè, e como tal, tende-se a tratar cidade como oikos, como uma casa, o espaço privado por excelência, gerido despoticamente para o interesse de um pequeno sector da sociedade que a habita.
Nas palavras de Pier Aureli, resumamos a evolução da cidade moderna da seguinte forma:
“If, as stated before, the city began as a dilemma between civitas and urbs, between the possibility of encounter (the possibility of conflict) and the possibility of security, it has ended up as completely absorbed by the infinite process of urbanization and its despotic nature.”[6]
Dado isto, a distinção que Chomsky esclareceu relativamente à questão de quem exerce terrorismo aplica-se à distinção entre cidade e não-cidade. Esta, no fundo, representa a distinção entre aqueles que pertencem ao estado da civitas, os reconhecidos cidadãos da urbanização (império), e aqueles que não lhe pertencem, os dissidentes, os pobres; ou quando pertencem, apenas se lhes permite integrar a urbanização de forma segredada ou secundária. Com maior clareza, é a distinção semelhante à entre os que podiam aceder à Aghora e todos os outros, marginalizados da vida publica e politica da polis.
Não há melhor tipologia para explicar o mapeamento entre cidade e não-cidade que a casa grega, a oikos, na sua clara divisão entre o espaço dos escravos e o dos senhores da casa, está lançada a estrutura urbana, por exemplo, do Rio de Janeiro.
Então, a condição política imperial, de descendência romana talvez, é o contexto em que esta distinção se permite existir. No entanto, a lex deixou de ser política no seu sentido público, o seu derradeiro objectivo já não é a pax romana, observe-se o Iraque, o mais recente e emblemático exemplo de um programa imperial.
A lex e a pax romana foram transformadas no exposto pela personagem de Wagner Moura, Roberto Nascimento, na sequela do Tropa de Elite, na seguinte fala: “Prós políticos não era interessante que morresse logo, antes de depor, eu ia virar mártir dos direitos humanos em plena CPI e o Fraga ia transformar o governador em suspeito de assassinato. Só que o sistema não tem planejamento central nem directoria, parceiro! O sistema é um mecanismo impessoal, uma articulação de interesses escrotos.”
Por implicação civitas, o nível base de pertença política a uma sociedade, a condição de cidadania, peca por se encontrar suprimida de conteúdo; daí a extensiva utilização dessa palavra por sociólogos e políticos contemporâneos, entre outros, na tentativa de esconder ou preencher o vazio.
Consequente e independentemente das unidades políticas que são mantidas, sendo estas identidades sócio-simbólicas[7], actualmente tanto a infra-estrutura de várias sociedades bem como a sua gerência são simultaneamente genéricas, a-politicas e objectivas; e a urbanização é o seu suporte, o derradeiro mecanismo de controlo do território e seus habitantes.
É por isso que podemos observar entre os EUA e a China, dois extremos simbolicamente opostos no imaginário social e politicamente definidos como opostos, o mesmo uso da urbs no seu sentido original enquanto a pré-condição ou a condição infra-estrutural de coabitação. A urbs vem permitir por um lado, integrar todos os ‘cidadãos’ numa civitas simbólica e exercer o seu controlo, e por outro lado, a livre gerência do território pela technè oikonomikè.
Através da urbs todo o lugar é domesticado para a gerência privada da sociedade.
Consequentemente, diria que Chomsky está apenas em parte certo, pois quem define a diferença entre maus e bons não são principalmente os EUA ou o Bloco Ocidental, mas sim, a infra-estrutura, a gerência do mundo como uma casa. Quem é terrorista é pois quem é contra esse despotismo infra-estrutural, é quem é contra a urbs, é quem procura autonomia.
Face a isto, concordo com o que Rahul Srivastava escreve a propósito da luta pela autonomia de direitos dos Kolis no Dharavi, em Mumbai, Índia, que é o seguinte:
At the end of the day the triumph of Koliwada-Dharavi will be a triumph of Dharavi as a whole.”[8]
O que está em jogo nesta luta não é apenas a defesa da qualidade de vida de uma etnia, programa em si infrutífero dada a infra-estrutura dos problemas, mas sim, e mais importante, o esboçar de uma alternativa à pertença na urbz, um projecto de autonomia.
Neste processo purgam-se retóricas, ‘quem é o terrorista?’, ‘quem é cidadão?’, ‘qual é a cidade e qual a não-cidade?’. Invertem-se as dicotomias, por um lado, o terrorista, aquele que exerce terror, é a gerência económica da sociedade através do estado, por outro, o cidadão esfuma-se e todo o vazio da concha da cidadania é exposto, sendo substituído por uma comunidade política que luta por objectivos concretos.
Neste processo exercita-se o abolir da distinção entre cidade e favela, ambas são formas de coabitação e ocupação do território, ambas são cidade, não há ambas, não há uma autêntica diferença entre duas formas de fazer cidade a não ser a produzida qualitativamente pelos que governam o espaço urbano.
Onde este processo dará, o que dele resultará, não sei dizer. Haverá sempre o precipício do falhanço tão definido pelos vários projectos deste género, inaugurados na década de 1970 em várias ‘não-cidades’ da América latina. No entanto, talvez este projecto, o do Koliwada-Dharavi, traga consigo outras lições, talvez um melhor entendimento de como construir um projecto de autonomia na oikos capitalista de hoje em dia.
Se pensarmos na urbs como a pele desse corpo monstruoso[9] que é o capitalismo, então qualquer buraco, ferida, ilha nessa contínua pele inscreverá uma possibilidade de autonomia, a possibilidade de voltar a integrar o político no coabitar.
Incertezas à parte, o certo é que a presente gerência económica do coabitar sempre necessitará de terrorismo.


[1] Entrevista a Noam Chomsky por Evan Solomon, acerca do livro "Hegemony or Survival: America's Quest for Global Dominance". http://www.youtube.com/watch?v=10rTPSSmOFw&feature=related
[2] Pier Vittorio Aureli, “The possibility of an absolute architecture”, MIT 2011, p. 3
[3] Ibid., p.4
[4] Ibid., p 5
[5] Ibid., p. 20
[6] Ibid., p. 27
[7] Proponho que identidade socio-simbolica seja entendida como uma imagem que gera simbolismos, ou seja, uma imagem-ideia que se aporta ao imaginário social de dada sociedade. Descritivamente pode ter uma função semelhante à das imagens-ideias no mapeamento cerebral, não são em si verdades, mas sim sínteses e interpretações de experiências ou coisas às quais pretendemos aceder de forma imediata.
[8] http://dharavi.org/index.php?title=C.Communities_%26_Nagars_of_Dharavi/Koliwada
[9] “This capital-flesh oppresses us, but we are stuck within it. We hate it, but we are also compelled to love it, because we depend upon it for sustenance, and we cannot live without it. Understood according to the order of first causes, sub specie aeternitatis as Spinoza would have it, capital is parasitic upon the labor of the multitude. But existentially and experientially, the situation is rather the reverse: we are parasites on the monstrous body of Capital.”
Paul Shaviro, excerto retirado em: http://www.shaviro.com/Blog/?p=641

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Mercado das Artes 2011




O Mercado das Artes é um evento organizado pela CAL - Comunidade Artística Limana, que ocorre durante o fim-de-semana de 3 a 5 de Junho de 2011, nas instalações do Mercado Municipal de Ponte de Lima. O espaço, cedido pela Câmara Municipal de Ponte de Lima, é palco de uma série de actividades que englobam as diversas áreas das artes.

Este evento tem como principal meta a divulgação de trabalhos de artistas na área da música, artes plásticas, teatro, fotografia, dança, artesanato, literatura, design, etc, num espaço composto por várias lojas e um espaço ao ar livre, privilegiando a exposição e a promoção de criações artísticas.



http://www.cal4990.com




Depois de algum tempo adormecidos por estes lados, mas bastante despertos por outros, eis que ressurge, qual fénix renascida, mais um esquiço no escuro. Porque esta história será interminável!


“Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.”
Alberto Caeiro

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

No caderno que vinha na mala

Acordo ao som da chamada para a oração, que rapidamente descubro já não ser a primeira nem a segunda chamada. Este é, dizem-me, o único relógio que conta por cá. Olho para o relógio ocidental que trago comigo, uma espécie de teimosia cultural, e já é meio-dia, a hora da terceira oração, o que traduz doze horas de sono reconfortante, fruto da longa e cansativa viagem que nos trouxe de Portugal até Chefchauen em transportes públicos e que começara cerca de 36 horas. Do trajecto já se guardam algumas imagens arrebatadoras como o nascer do dia na transladada Vila Real de Santo António, ou o atravessamento a pé da fronteira Ceuta-Marrocos. Lá, em 500 metros fomos sugados por Africa. Pela primeira vez na vida compreendi o porquê dos autores de viagem darem tanto ênfase às estórias passadas nos atravessamentos de fronteiras. Lá, em 500 metros fomos invadidos na privacidade pelos marroquinos, no nariz pelo cheiro que dizem característico de Africa, nos olhos pelas cores berrantes com que tudo se pinta. De repente, em 500 metros tudo muda, os paradigmas, as crenças, o way of life, as relações e o seu contrário. Sempre fui um céptico do conceito de fronteira, derivado da sua natureza humana, mas há algo que se aprende sobre essa mesma humanidade ao atravessa-la, ao percorre-la a pé, sem artefactos, como se fez durante séculos, sente-se que é naquela artificial linha que se concentram as mudanças e deu-se até o caso de me pôr a pensar que seria muito bom ter uma daquelas linhas de fronteira de civilização, não essas que separam o que está uno, como as da Europa, nas escolas e universidades do meu país.
É no terraço superior da pensão Goa, com vista para toda a vila, encravada numa encosta das montanhas Rif, que recebo esta iniciação a Africa: o cheiro que vem com o vento que escorrega pela montanha abaixo, que se sobrepõe ao cheiro estático da cidade; as casas brancas com porções da sua volumetria pintadas a azul forte, mais umas portas rosa, amarelo, vermelho ou verde, que pintam esta colina construída diante de mim e a fazem transmitir uma alegria difícil de explicar, mas com certeza resultado de mais um passo meu em direcção à Terra, que sinto mais próxima de mim a cada dia que passo em viagem.

terça-feira, 17 de abril de 2007

No caderno que vinha na mala

Em Barcelona não se tiram fotografias a preto e branco, mas por vezes, estas obtêm-se. É como se ela fosse a casa do Deus das cores, omnipresente e omnisciente, com infinita ciência do belo, que se exprime na harmonia com que os raios do Sol são lá reflectidos. Barcelona é a preto e branco aqui, a cores mediterrâneas ali, dragões chineses nas ombreiras das portas, ao lado de bancas com chás marroquinos, casas que vendem cerâmica catalã em frente ao quebab, ou aos hambúrgueres. As cores de Barcelona fazem-se de um pouco de tudo o que neste Mundo mexe, não a retalho, mas em síntese. As pessoas em Barcelona entregam-se à criação da cultura global, por soma de todas as partes do mundo que ali coabitam, e que se tentam adaptar a Barcelona pondo tudo aquilo que trazem consigo na mala, ao serviço desta nova forma de lugar, o lugar global.
Se a arte pode ser tudo o que nos faz experiênciar algo transcendente, então esta cidade faz-nos transcender em cada esquina, em cada mercado, em cada bairro, em cada colina, também pelos museus, pelas casas, pelas igrejas, mas principalmente pelo seu "modus vivendi", que não é do Bairro da Grácia, nem da Catalunha, nem de Espanha, nem da Europa, é do Mundo.
Ao fim da tarde, no Porto Velho, tomava um chá e apreciava aquele crepúsculo laranja escuro com castanho claro, e dou por mim a pensar numa frase inscrita na camisola do empregado de mesa que em Português seria "Eu não sou Espanhol, sou Catalão". Talvez um dia, num dialecto universal, fruto da civilização global, a palavra Catalão signifique Cidadão do Mundo.